Cem anos que abalaram o Mundo: hipóteses emancipatórias


Aconteceu nos dias 24 e 25 de novembro, na Faculdade de Economia da UC, o colóquio “Cem anos que abalaram o mundo: hipóteses emancipatórias”. O centenário da Revolução Russa serviu como oportunidade para o Centro de Estudos Sociais (CES) promover uma ampla reflexão sobre caminhos emancipatórios que atravessaram o mundo no século XX e sobre suas heranças, legados e limites. Enquanto lócus das esperanças e dos impasses de um novo modelo socialista, o evento 1917 constitui uma oportunidade analítica para pensar experiências e projetos que foram construindo trajetórias alternativas ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcado.

Através de uma análise das mudanças ao longo do século XX foram pensadas alternativas e hipóteses emancipatórias para os dias de hoje. O evento contou com a participação de pesquisadores e ativistas de vários lugares do mundo, possibilitando uma avaliação a partir de diversos pontos de vista e contextos.

A conferência inaugural foi ministrada por Boaventura de Sousa Santos, que trouxe reflexões importantes acerca do pensamento dominante de que a Revolução Russa foi um fracasso. O autor questiona se esse pensamento é da classe dominante ou da classe dominada? Ou é compartilhada por ambas? Em que medida esse acontecimento representa um êxito ou um fracasso? Mas, o certo é que a Revolução Russa significou uma alternativa real. Após discursar sobre os problemas levantados pela Revolução, destacou os elementos que, articulados, dominam as sociedades: o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado. Boaventura falou ainda sobre as dicotomias entre a Revolução e a democracia, trazendo para a apresentação as críticas de Rosa de Luxemburgo e a necessidade fundamental de garantia da liberdade. Por último, falou sobre os processos para revolucionar a democracia e democratizar a revolução.

Em continuidade ao evento, foram realizadas duas mesas-redondas. A primeira teve como tema: “Transformação social e sujeitos políticos” com Juan Carlos Monedero, politólogo e escritor espanhol, que afirma que a Rev. Russa fundou um novo tempo. Temos agora uma nova racionalidade, o capitalismo global influencia qualquer governou e a globalização é um processo irreversível. Monedero dividiu a mesa com Gladys Tzul Tzul, ativista e investigadora maia kich’e, que trabalha com os sistemas de governo comunal nas comunidades indígenas da Guatemala. Ao relatar sua experiência destacou que o sistema comunal é uma prática política.

A segunda mesa-redonda intitulada “Democracia e desafios para o século XXI”, com Kamal Chenoy professor, acadêmico e ativista indiano, e Zenebework Tadesse da Ethiopia, pesquisadora das ciências sociais, ativista pelas mulheres e pela democracia. Ambos convidados falaram a partir de suas experiências em seus contextos de atuação.


Em seguida às mesas-redondas, quatro painéis foram realizados onde ficou sob a responsabilidade de cada interlocutor responder a uma pergunta proposta pela comissão científica do evento:

Adeus Lenine? A evocação do nome do líder soviético - e do conhecido filme de Wolfgang Becker - permitiu equacionar as heranças políticas e ideológicas que a revolução russa pode suscitar, bem como reimaginar a possibilidade das hipóteses socialistas nos tempos de hoje.


Com João Arsénio Nunes (da esquerda para a direita) investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, de Portugal; José António Bandeirinha professor Catedrático do Depto de Arquitectura/UC; Rui Bebiano, professor da Fac. de Letras/UC e investigador do CES; José Neves, historiador do comunismo.

Pode a/o subalterna/o falar?  O painel foi composto por Raquel Lima, licenciada em estudos artísticos e doutoranda do Programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global do CES; Ana Barradas, jornalista e tradutora, autora do “Dicionário Incompleto de mulheres rebeldes”; Catarina Isabel Martins, professora da Fac. de Letras/UC e João Arriscado Nunes, prof. Catedrático da FEUC e Investigador do CES. Teve foco na subalternidade das mulheres nas várias esferas da vida. Pensar a questão no feminino nos obriga a uma atenção epistemológica sobre todos os sistemas de opressão.

Colonialismo, não passará? Nos dias atuais a pergunta sobre se o ciclo colonial já passou adquire novos sentidos face aos desenlaces pós-democráticos e neoliberais que invadem e povoam os horizontes políticos de uma boa parte da humanidade. Para desenvolver essa questão foram convidados Silvia Maeso, doutora em Sociologia política e investigadora do CES; Maria Paula Menezes, investigadora do CES; Pedro Pezarat Correia, brigadeiro  e Fernando Rosas, historiador.

 É tão difícil imaginar o fim do capitalismo como imaginar que o capitalismo não tenha fim? A função de finalizar o evento coube aos europeus Patrícia Vieira, investigadora do CES; Manuel Carvalho da Silva, sindicalista; Francisco Lousã, economista;  Sandra Monteiro, jornalista do Le Monde Diplomatique-PT. A eles foi posto o desafio de trabalhar a sessão que transforma em pergunta uma constatação feita por Boaventura de Sousa Santos. Torna-se de novo urgente pensar criticamente sobre o capitalismo e sobre outros ismos.

Enfim, um final de semana intenso de debates e reflexões.

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