A condição do estudante estrangeiro.


Alain Coulon, em seu livro “A condição de estudante” aborda a temática da inserção do estudante francês na universidade. Ao entrar em uma universidade, assim como qualquer novo ciclo da vida, a pessoa precisa assimilar não apenas o horário das aulas e o nome dos/das docentes, há um mundo novo a descobrir, culturas outras que não lhe eram corriqueiras, detalhes dos corredores, os melhores caminhos para um campus, com quem se relacionar, como estudar os novos conteúdos... Uma dúvida pode reunir muitas dessas temáticas: como ser estudante universitário se até ontem eu era um estudante escolar?
Coulon fala de sua experiência enquanto pesquisador, enquanto francês. Hoje, nos inspiramos neste autor para falar sobre a nossa experiência. Ao construirmos todo um imaginário sobre o que seria ser universitário em outro país, não prevíamos uma série de pormenores. Não podíamos imaginar como os/as estudantes portugueses são diferentes dos brasileiros, não podíamos prever as praxes¹ e a constância de sua existência questionável pelos quatro cantos de Coimbra, não poderíamos imaginar que brasileiros são em grande número na cidade, na universidade... Poderíamos até pensar na possibilidade de existência de certos desafios e choques culturais, mas não conseguimos imaginar ao menos metade do que a realidade nos demonstra diariamente. Quando pensaríamos da importância de incluir no nosso cronograma um período de adaptação à cidade? Ou ao clima outonal? Ou aos horários portugueses que iniciam as atividades às 9? Ou as idiossincrasias do português de Portugal? 
Temos vivido e sentido tantas coisas, temos nos esbarrado com tantas pessoas e sentimentos, temos sentido desabrochar uma gama de sentimentos e emoções. O resultado disso é que temos chorado, como também aberto muitos sorrisos. Todo dia é um desafio que se põe a nossa frente, muitas vezes tombamos, mas logo nos levantamos com a ajuda de muitas mãos. Em meio a esse turbilhão de acontecimentos interiores e exteriores, temos crescido, o crescimento a nível pessoal, como também acadêmico.
Enquanto vivenciamos nossa experiência, cada um dos três possui singularidades, mas é comum o olhar questionador, curioso e atento aos detalhes. O estudo decolonial se transforma em vivência decolonial, a saudade da comida baiana vira tema de debate em aula, a nostalgia dos nossos lares se transforma em aflição pelo momento político do nosso país... Em alguns momentos, cada um de nós suspira e afirma: “Está difícil”. Ninguém nos enganou dizendo que seria fácil, mas... (suspiro). Transformar em palavras os sentimentos e experiências vividas nessa jornada Abdias, por vezes, se torna mais desafiador do que uma transcrição de entrevista, um fichamento, uma qualificação doutoral... Nessa narrativa são os silêncios e não-ditos que falam por nós. Todos os dias, processamos e questionamos um número incomensurável de informações e ideias, assim, por vezes mudos, seguimos em direção ao dia seguinte. Seguimos e resistimos, brasileiros que somos.


[1] “A praxe é uma estrutura profundamente hierárquica, apoiada num tipo de organização forte e com regras rígidas. Por todos os casos que conhecemos podemos com firmeza dizer que a praxe é violenta física, simbólica e psicologicamente. Aproveita-se de fragilidades pessoais, de estigmas e de preconceitos hegemónicos. É profundamente machista, promove uma submissão da mulher e do seu corpo perante a virilidade da masculinidade. É homofóbica, exortando o uso de expressões como “gay”, “paneleiro”, “vão levar no cú”, “vão ser enrabados” como sinónimos de insulto a outros cursos ou escolas. É antidemocrática, baseada em ordens e imposições, sobre as quais os caloiros têm o dever de obedecer, olhando para o chão e não levantando objeções.”
Fonte: https://www.esquerda.net/opiniao/praxe-acad%C3%A9mica-percursos-significados-e-formas-de-combate/24906?page=0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C0%2C0 %2C1

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