Enfim, chegamos!

Nossa viagem se inicia antes mesmo do dia do embarque. Foram meses de preparação, frios na barriga, compartilhamento de lembretes e informações em um grupo que criamos no Whatsapp intitulado “SOS Projeto Abdias”, no qual questionávamos as burocracias luso-brasileiras e iniciamos o dividir das ansiedades e dos desafios que nos esperavam.
No dia do embarque, 01 de setembro, quase não nos falamos durante o dia, para aproveitarmos os últimos momentos com nossa família e em nossos lares. Íamos nos encontrar no aeroporto já que viajaríamos no mesmo voo. Ana foi a primeira a chegar no aeroporto, com sua família super numerosa: sua mainha, Wal, seus filhos (Lucas, João e, Maria), seu companheiro, Marcelo, sua sogra, Mari e uma amiga irmã, Sheila. E por volta das 20:30h Ana e Nelson se encontraram. Ele optou por, no fim, ir sozinho ao aeroporto e enquanto embarcava para Portugal, sua família seguiu na volta para casa, Teixeira de Freitas, com o coração apertado e já cheio de saudade (tínhamos mesmo que inventar esta palavra, só ela consegue descrever o sintoma que acontece quando o coração aperta e faz os olhos lacrimejarem por quem amamos).
A tensão pairava no ar entre todos nós, Nelson e Ana estavam preocupados como seria com a imigração e não sabiam como seria para despachar as malas. A fila da TAP, empresa aérea que íamos viajar estava enorme, e nenhum de nós tínhamos feito check in pela internet. Os dois já estavam na fila há quase uma hora, ela não andava quase nada, e o nervosismo só aumentava. Em meio a espera descobriram que ainda poderiam fazer o check in online pelo celular, porém o aplicativo era confuso, e mesmo fazendo todo o procedimento, não tinham a certeza se haviam conseguido. Não conseguiam obter informações. Nesta hora que começa uma série de intervenções, o que podemos chamar de empatia e solidariedade, e, inclusive estamos encontrando muito ao longo desta jornada. Foi neste momento que um atendente da empresa, vendo a aflição deles, verificou que o procedimento do check in tinha sido realizado com sucesso e os direcionou para outra fila que já estava muito menor e mais rápida. Enfim a primeira prova de fogo: “as malas estavam dentro do peso ou fora do peso?” Tudo certo! Malas despachadas sem problema algum, seguiram para o portão de embarque internacional para esperar a chamada do voo. E foi neste momento que Marília ligou e informou que tinha chegado.
Agora estávamos os três já no aeroporto. Marília foi orientada a fazer o mesmo procedimento do check in pela internet. Ela estava acompanhada por seu marido, seu tio, que também viajaria para Portugal no mesmo voo, e um amigo. Como a organização da mala do seu tio havia demorado mais do que o esperado (como sempre acontece com esse tio), ela chegou ao aeroporto tensa e preocupada com o embarque e possíveis atrasos. O carrossel de emoções era tanto que Marília pediu para o amigo realizar o seu check-in enquanto respirava um pouco. Uma presença que a distraia era uma pequena girafa de pelúcia, apelidada de Florzinha, que ela ganhou de presente de uma de suas afilhadas antes de sair de Santo Antônio de Jesus, sua cidade natal. Ela se tornou sua parceira de viagem e um elo com suas afilhadas queridas.


Já no embarque Internacional, por volta das 22:00h, chegou a hora das despedidas e de enfim (e dolorosamente) nos separarmos dos nossos. Nelson, Ana e sua família escutaram o chamado do voo, e entre muitos abraços, carinhos, afagos e afetos, palavras de incentivo, choros e muito amor, se despediram. Marília embarcou um pouco mais atrás, com as mesmas emoções e despedidas, como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Nosso voo sairia às 23:25h, mas precisávamos ainda passar pelo processo do detector de metais e da imigração.  Nelson e Ana seguiram conversando tentando espantar a tensão que pairava no ar, e na fila para o detector se perguntavam como seria, eles, dois negros, passarem pelo processo da imigração. Passaram pelo detector: “Ufa... Tudo certo!” E seguiram na fila da imigração. Cada um em um guichê, um do lado do outro, ouviram um frio boa noite, e a tensão e a ansiedade aumentavam quase fazendo o tempo parar. Os passaportes foram devolvidos quase que no mesmo instante. “Agora sim! Estamos indo para Portugal!“
Como Marília demorou um pouco mais para chegar, nos encontramos todos apenas no salão de embarque, após o processo de imigração, e conversamos quase que sem parar, tentando distrair a saudade, que já machucava, e a ansiedade pelo que vinha pela frente.


O voo foi tranquilo, sem muitas turbulências, as primeiras fotos foram tiradas e conversamos pouco, afinal era madrugada e os esforços e receios dos últimos dias no Brasil nos exauriram. Saímos do avião com a manhã avançada em Lisboa, com o fuso horário atuando e os olhos curiosos com terra à vista.
O primeiro momento burocrático em terras portuguesas foi a fila de entrada no país: uma enorme fila destinada a todos os cidadãos não-europeus, enquanto a fila de europeus quase nem existia. Neste momento, estávamos preparados com todos os documentos necessários caso houvesse algum problema. Depois de quase uma hora de espera, o atendente destinado a Marília parecia não conhecer muito o trâmite de entrada com visto de moradia temporária, enquanto isso, Nelson e Ana passaram sem nenhuma eventualidade e sorriram com a pergunta: “Vocês serão professores?” feita pelo atendente muito simpático.



Após este primeiro momento apreensivo na emigração, o bálsamo chegou em nossos corações, porém durou muito pouco, pois começava a saga na mala de Nelson, que não chegava na esteira. Depois do  momento “Ai meu Deus, minha mala sumiu” e “Logo a mala que estão todos meus cremes de cabelo. Socorro!”, Nelson pode se reencontrar com suas coisas e nos separamos. Marília seguiu para casa de uma amiga em Lisboa, Marialva, onde ficaria alguns dias. E Ana e Nelson seguiram para o desembarque, para encontrar a prima de Nelson, Leide, que esperava por eles no aeroporto. Foi um reencontro familiar caloroso, afinal já havia algum tempo que Nelson e ela não se viam, a última vez foi quando ele tinha estado em Portugal acompanhando sua família que aqui estava trabalhando. Agora ele retorna em outra circunstância e ocupando um outro lugar, o que deixa um sabor diferente.
Após almoçarem em Lisboa, na casa de Leide, Nelson e Ana seguem para Coimbra no fim da tarde. Eles optaram por morarem juntos e alugaram dois quartos ainda quando estavam no Brasil, a partir de um grupo no Facebook. Quando chegam em Coimbra descobrem que o senhorio (a pessoa responsável por alugar a casa) também é brasileiro, e isso tem ajudado muito, ele tem sido bem acolhedor e colaborado positivamente neste processo todo de adaptação. Marília escolheu um estúdio que fica localizado na parte alta da cidade e foi indicado por Natália. Como seu marido irá visitá-la, ela optou por um estúdio completo, como um apartamento, mas em proporções mínimas.
No mesmo dia da chegada em Coimbra, Nelson e Ana foram recebidos carinhosamente por uma amiga de Ana, Roberta, e por sua filha Isis, que trouxeram um bolo delicioso de chocolate e refrigerante, porém muito mais que isso, também mostravam com este gesto que não estávamos sozinhos. Marília chegou dois dias depois, acompanhada do tio e da amiga, depois de visitar rapidamente Fátima. Ao chegar em Coimbra, após uma confusão de endereços, foi recebida pela responsável do prédio, uma senhora portuguesa super acolhedora e prestativa que lhe ajudou com as malas e lhe apresentou as regras e espaços do prédio. Após as despedidas do tio e da amiga que retornaram para Lisboa, ela iniciou o processo de organizar o seu espaço.
Não chegamos juntos na cidade, porém o primeiro dia foi para todos o início da consolidação de uma rede de afetos que se formava. Mesmo estando distantes do nosso lar, de nossos amigos, de nossa família, de nossa terra, de nossa gente, aqui já encontramos pessoas maravilhosas que tem feito os nossos dias saudosos ficarem melhores…


Para não esquecermos de quem somos, deixamos um poema de nosso patrono que se confunde com nossas vidas e pelo que lutamos:

Olhando no espelho


[...] Negrinha garoto negro
sei que somos uma
prosseguimos os mesmos
ao abandono de nossa orfandade

Assim juntos e sem nome
devemos continuar nosso sonho
nosso trabalho
reinventando as nossas letras
recompondo nossos nomes próprios
tecendo os laços firmes
nos quais ao riso alegre do novo dia
enforcaremos os usurpadores de nossa infância

Para a infância negra
construiremos um mundo diferente
nutrido ao axé de Exu
  ao amor infinito de Oxum
  à compaixão de Obatalá
  à espada justiceira de Ogum

Nesse mundo não haverá
  trombadinhas
  pivetes
  pixotes
  e capitães de areia


(Búfalo, 1980 - Abdias do Nascimento, em "Axés do sangue e da esperança: Orikis". Rio de Janeiro: Achiamé; RioArte, 1983, p. 71-73)

Até breve…!

Ana, Marília e Nelson

Comentários

  1. Que delícia ler estas palavras... Delícia saudosa, mas com gostinho de vitória! Não vejo a hora disto vrar nostalgia e ter vc (Aninha, minha Poesia, de volta). Mas enquanto isto aproveita ao máximo e ensina sobre decolonialidade levando a força e sabedoria do sul para essa galera daí!!!

    Te AMO Ana!!!

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  2. Que delícia ler estas palavras... Delícia saudosa, mas com gostinho de vitória! Não vejo a hora disto vrar nostalgia e ter vc (Aninha, minha Poesia, de volta). Mas enquanto isto aproveita ao máximo e ensina sobre decolonialidade levando a força e sabedoria do sul para essa galera daí!!!

    Te AMO Ana!!!

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  3. Minha filhinha do meu coração te amo muito. Apesar da saudades peço a Deus que lhe dê sabedoria, para que seja persistente. Deus lhe abençoe e lhe proteja sempre. Beijos no coração

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  4. Minha filhinha do meu coração te amo muito. Apesar da saudades peço a Deus que lhe dê sabedoria, para que seja persistente. Deus lhe abençoe e lhe proteja sempre. Beijos no coração

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  5. Que Deus te abençoe e te ilumine neste projeto, estamos orando e vibrando por voce, um forte abraço desta família que te ama muito, e está com muitas saudades

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  6. Novos caminhos, caminhos novos!!! Queridxs , voando alto!!!! Sucesso!!!

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