Os primeiros dias

Para chegar ao nosso destino, Portugal, saímos de Salvador e fizemos uma escala em Recife. Aqui, para ter acesso ao avião da TAP nossas bagagens de mão passaram por uma revista rigorosa, pois não é permitido carregar líquidos, alimentos e materiais tóxicos, como uma cola super bonder, por exemplo. Tudo fica apreendido caso os encontre em nossas bolsas, mochilas, etc. Após passarmos por esta revista, como bem avisado pela professora Sônia, pediram para olhar novamente os documentos de Natalia em um lugar separado do local onde as outras pessoas iriam embarcar; depois de algum tempo incômodo, sem receber respostas sobre o motivo de estar ali, foi liberada. Logo depois também chamaram Jacira pelo microfone do aeroporto, pediram seu passaporte e a questionaram sobre a data da volta de Portugal. Depois todos foram liberados para seguirem viagem.
O voo em direção a Lisboa foi tranquilo. Ao desembarcarmos no aeroporto, nos deparamos com uma multidão de pessoas, “não europeias[1]” que aguardavam numa fila gigantesca para receber o visto em seus passaportes, processo demorado que durou quase uma hora. Pensem que viajamos a noite inteira! Finalmente fomos liberados e, de posse de nossas tantas bagagens, fomos recebidos por Ava que estava no aeroporto nos aguardando. A presença de Ava foi importante para nos sentirmos mais seguros e orientados sobre qual direção deveríamos seguir. Fomos acompanhados por ela até o hostel[2] onde havíamos feito reserva para os dois dias que ficaríamos em Lisboa. No percurso no interior de um grande táxi, tivemos nosso primeiro contato com a acolhedora Lisboa, sua arquitetura antiga, seu ar frio, apesar do sol que lá fazia.
No Lisbon Calling hostel, chamou-nos a atenção uma decoração diferente, atenção aos detalhes e do mobiliário. Dividimos o quarto com mais três pessoas, onde o ambiente foi tranquilo e silencioso, apesar do ir e vir frequente de hóspedes, que muitas vezes ficavam apenas uma noite por lá. Um ponto positivo desta experiência foi a convivência, ainda que breve, com outros estrangeiros, de diferentes países que falavam em seus próprios idiomas, e que estavam em Portugal em busca de diversos objetivos e oportunidades distintas.  O local onde o hostel fica localizado é bem agitado, isso facilitou, quase que de imediato, o contato não só com portugueses, mas também com outros povos: italianos, argentinos, venezuelanos, angolanos e muitos brasileiros também, além de até comer coxinha vendo jogo do Corinthians em um local próximo. Passar uns dias em Lisboa foi importante para a nossa adaptação inicial, pudemos descansar da viagem, caminhamos por horas com o objetivo de conhecer um pouco da cidade, nos misturamos com pessoas de muitas partes do mundo que ali habita ou passeia, e provamos da calórica culinária portuguesa. A necessidade de assimilar essa nova cultura se fazia presente, principalmente a partir da adaptação ao fuso horário (são 4 horas a mais que o Brasil) e também ao uso dos “euros”, pois aqui caminhamos em outra cultura.
Na terça feira, 12 de setembro, seguimos de ônibus até Coimbra onde iríamos nos separar pela primeira vez. Na chegada na cidade onde estabelecemos nossa morada até agosto de 2018, passamos por situações engraçadas, desde não fazer a menor ideia de como ligar o chuveiro[3], até mesmo nos surpreender ainda mais com a dificuldade de entender o português e inglês (que foi tão necessário em alguns momentos contados mais adiante).
A Universidade de Coimbra abriu o Buddie Program para o ano letivo de 2017, que permite que estudantes veteranos e alunos de mobilidade se inscrevam e com a semelhança entre perfis possam se tornar amigos, fazendo com que os estudantes estrangeiros tenham alguém do mesmo curso para tirar dúvidas, participar das festas e receber algum tipo de apoio. Diana foi a “buddie” que entrou em contato com Natalia, se disponibilizando para buscar na estação rodoviária e fazer um pequeno passeio pela Universidade, ainda possuem contato e isso foi bom para conhecer mais a estrutura física e algumas histórias tradicionais de Coimbra.
A tradição universitária também foi algo que nos chamou bastante a atenção, toda a cidade parece funcionar para a Universidade, são muitas as histórias e rituais que os estudantes contam e participam. Além de surpreender, isso também causou estranhamento para nós que viemos de uma instituição e um local diferente. Chegar a Coimbra causou a sensação de surpresa com as belezas e culturas diferentes, mas também, uma sensação incômoda de deslocamento daquela realidade, isso mais para Natalia e Carlos. Para Jacira a dificuldade maior se tornou lidar com o frio peculiar da cidade. Aqui as temperaturas oscilam entre 15 e 17 graus, sendo a manhã e a noite os períodos mais frios. E o detalhe é que estamos ainda iniciando o outono.
Nosso processo de instalação em Coimbra, incluiu a procura por local de moradia e as providências necessárias para viabilizar nossa estadia de forma legal por este ano que temos pela frente. Jacira destaca a gentileza dos portugueses de forma geral. Ela e Natália foram acolhidas por duas senhorinhas, que estavam sempre dispostas para o que fosse preciso nos apartamentos que alugaram. Brincamos com Natália dizendo que ela ganhou uma segunda mãe por aqui de tanta preocupação que a senhora tem com ela.... Comum por aqui é a existência de inúmeros imóveis mantidos com o fim de alugá-los a estudantes da Universidade. Outra experiência relevante resultante disso: dividir espaço com estudantes de outros lugares, pois alugam-se quartos nos apartamentos por períodos diversos, e isso exige disciplina para manutenção da ordem, organização e limpeza do espaço mantido pelos que ali habitam. Assim, embora em locais afastados, já estamos bem instalados no que se refere à moradia e adaptados ao fuso horário.
Tivemos nossa primeira reunião com a também coordenadora do projeto que estamos participando, a professora Maria Paula Meneses que nos recebeu muito bem explicando algumas coisas mais burocráticas sobre o funcionamento do Centro de Estudos Sociais (CES).  Expôs também um pouco sua trajetória e alguns dos principais conceitos que são trabalhados. Ela pediu que falássemos um pouco sobre nossos planos e fez sugestões mais práticas para a execução deles. Esse primeiro encontro já foi uma aula para nós.
A professora Maria Paula sugeriu que escrevêssemos um documento conjunto para o fim da pesquisa, algo que fosse escrito através da nossa experiência com o tema e que pudesse ser entregue para a UFBA com sugestões do que poderia ser modificado na universidade para que esses três segmentos[4] que estamos estudando se sintam mais pertencentes e valorizados na instituição. Nós três gostamos muito da ideia.
Os estudantes de mobilidade (graduação, licenciatura ou mestrado integrado) precisam agendar uma entrevista de recepção para confirmar a chegada à UC, que foi marcada para depois da reunião com a professora Maria Paula e, para nossa surpresa, ocorreu em inglês, que parece ser comumente falado pelos portugueses em Coimbra. Todas as informações de matrícula, isenção de pagamentos de propinas[5], local das aulas, mudança de planos de estudo, burocracias e outras informações nos foram passadas em uma reunião com mais aproximadamente dez estudantes de mobilidade. Isso nos fez pedir para que a pessoa que dirigia a reunião repetisse em português algumas questões. Ainda sobre o inglês, é muito natural que a bibliografia dos componentes curriculares seja neste idioma, e outras como francês e alemão, assim como as línguas utilizadas nas próprias aulas. Este fato provocou alterações nos planos de estudo de Carlos e Natalia, sendo necessário trocar algumas disciplinas, mas ainda assim continuaremos precisando ler em inglês.
Ainda não tivemos experiências nas salas de aula, no entanto o sistema Inforestudante (semelhante ao nosso SIAC) parece funcionar muito bem, onde os professores já disponibilizaram alguns textos e apontamentos para as aulas. Com ajuda da coordenadora de mobilidade da Faculdade de Psicologia, Natalia foi inscrita em uma turma de inglês ofertada para os alunos de farmácia, continuamos tentando fazer alterações nos nossos planos.
Jacira vive um processo um pouco diferenciado de Carlos e Natália por ser estudante de doutoramento, como aqui eles denominam o doutorado. Está em processo de alinhamento com a professora Maria Paula que será sua orientadora por aqui em parceria com a professora Sonia aí no Brasil.
No mais, estranhamos também o clima, já faz frio e nosso corpo já sente, Natalia em casa com uma gripe, e Jacira saindo de casa somente o necessário, até poder se sentir mais adaptada ao clima (pedimos força para o frio de verdade!). Porém, não dispensa uma caminhada pela cidade florida, limpa e organizada. Carlos, tem relatado o quanto está sendo difícil adapta-se aos contextos vivenciados na UC e na cidade de Coimbra. O caráter ritualista encontrado na Instituição com estudantes usando trajes negros - que lembram muito trajes militares-, o desconforto acerca de ter pouco acesso direto aos professores, a burocracia institucional e o pior de tudo, o seu medo de não conseguir encarar tais aspectos como algo para se adaptar. No entanto, salienta que essas coisas podem fazer parte do processo e os muitos amigos que tem na cidade podem ajudar. Também já começou a conhecer grupos de estudos voltados para temáticas que sempre lhe chamaram a atenção, e sua convivência com os novos colegas de curso é muito boa. Ele divide um apartamento na parte alta da cidade, mais precisamente no Alto da Conchada, com quatro outros alunos da UC, todos do curso de Psicologia com uma convivência bastante harmoniosa.
Esta vivência em terras estrangeiras, enquanto estudantes estrangeiros caminha para registrar em nós uma profícua experiência e que desejamos compartilhar com vocês. Portanto, sejam bem vindos ao nosso blog!
Esse primeiro texto foi escrito em conjunto, mas teremos também publicações individuais, semanalmente ou quinzenalmente. Façam por favor sugestões para nós!
Abraços,
Carlos, Jacira e Natalia.

        






[1] No aeroporto de Lisboa há uma seção para os europeus e/ou pessoas que têm cidadania da comunidade europeia, e uma outra seção que os demais que não fazem parte daquele grupo, o nosso caso.
[2] Um hostel (frequentemente sinónimo de albergue) é um tipo de acomodação que se caracteriza pelos preços convidativos e pela socialização dos hóspedes, onde cada convidado pode arrendar uma cama ou beliche, num dormitório partilhado, com casa de banho partilhada, lavandaria e por vezes cozinha.
[3] A arquitetura e estrutura dos apartamentos de Coimbra são distintas da nossa. Daí a dificuldade de lidar com um equipamento simples como o chuveiro e fazê-lo funcionar na modalidade “água quente”.
[4] Carlos estuda o público indígena, Jacira, mulheres e Natália, estudantes egressos de escola pública.
[5] Diferente do Brasil, em Portugal, propina significa uma espécie de mensalidade escolar, que é cobrada para frequentar o ensino superior.

Nós três


Lisboa


Loja do CES




Comentários

  1. Parabéns pela iniciativa do blog e pelo relato cheio de detalhes!
    P.S: se já estão assim com as temperaturas "amenas", se preparem para quando o inverno chegar!

    ResponderExcluir
  2. Legal o blog. Acho que vocês terão muitas coisas interessantes pra contar. Acho que poderiam tambem explorar mais as fotos e intercala-las com tectos mais enxutos.

    ResponderExcluir
  3. Muito legal a ideia do Blog. Gostei da riqueza de detalhes explorada no texto....Parabéns e aproveitem esta experiência que , sem dúvidas, é por demais interessante!

    ResponderExcluir
  4. Gostei muito do relato, será muito bom acompanhar e aprender com vocês por meio do blog! Aproveitem bastante!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas